O Preço da Liberdade

Antonella Zara

                                                    www.antonellazara.com

 

Durante a minha infância eu me lembro de ter passado longos momentos contemplando grades. Intrigava-me vê-las em todos os lugares. Na escola elas separavam as crianças menores daquelas mais velhas, e também graças a elas a maioria dos colégios que freqüentei era isolada do “perigoso” mundo exterior. Elas protegiam as janelas dos apartamentos e das casas de visitas indesejadas, definiam quem era parte deste grupo ou daquela família, delimitavam espaços em geral e demarcavam limites. As grades olhavam para mim, impassíveis e geladas, e diziam: “daqui você não passa”. Quando eu era pequena muitas vezes encostei minha testa em alguma dessas estruturas metálicas, acariciei-as ou agarrei-me a elas com um misto de rancor e tristeza, e olhei languidamente para o espaço proibido entre elas. Por isso também creio que bem cedo comecei a sonhar com aquela liberdade que está além de nossos confinamentos humanos.

Tudo tem um preço. Textos sobre a cabala afirmam que nosso mundo é a manifestação visível de um imenso e invisível mercado espiritual (ou energético) no qual energias sutis são constantemente deslocadas. Qualquer pequena troca de energia tem um “preço”. Já os budistas falam de carma que nada mais é do que outra tentativa humana de descrever este “mercado”, ou esta imensa rede energética na qual tudo é, ao mesmo tempo, uma causa que gera um efeito, e um efeito que gera outra causa. Este princípio pode ser aplicado a qualquer coisa que fizermos a nós mesmos, a um objeto inanimado ou a outro ser vivo, seja esta nossa ação uma troca de olhares, emoções, idéias, afagos, palavras, moedas, ou abraços. Qualquer mínimo movimento de energia gerada e alimentada por nós tem sua importância, deixa uma marca virtual, cria um elo energético que reverbera de alguma forma, simples ou intricada, no mercado espiritual e posteriormente volta a se manifestar naquilo que percebemos com nossos sentidos e chamamos de nossa realidade.

Para quem observa e admite a veracidade disso, passa a ficar mais plausível a idéia que tudo aquilo que nos acontece de certa maneira é co-criado por nós. A interconexão com o universo que nos rodeia é a conclusão óbvia da observação da realidade. Por diversas razões, passíveis de discussão, esta verdade orgânica foi esquecida, mas ela já era conhecida muito antes dos tempos modernos por aquelas culturas que hoje designamos como sendo “primitivas”. No entanto, a urgência de proteger o nosso planeta, a nossa e outras espécies de nossa “moderna” e estreita visão do mundo, faz com que atualmente tenhamos que reavaliar nossos conceitos e nossas certezas. Ou seja, a conscientização desta inevitável interligação que temos uns com os outros e todos com tudo aquilo que existe e acontece é o próximo e inadiável passo que a humanidade tem que fazer para que um futuro seja possível.

 Mas talvez a causa de resistirmos tanto a assimilar este conhecimento ancestral venha de um medo profundamente enraizado em nossa psique. Temos um constante pavor de mudar. Receamos perder algo de essencial, ainda que não saibamos exatamente o que é. Mas na verdade é muito simples. Tememos perder uma liberdade que nem sabemos se temos. Todos os seres humanos, sem exceção, desejam ser livres. Entretanto, o que é esta liberdade com a qual tanto sonhamos? Podemos ir até o final do mundo, descobrir outros planetas, viver em uma ilha deserta, ganhar na loteria, encontrar um príncipe encantado, nos divorciar de um sapo, não importa o que façamos ou queiramos, nunca chegamos realmente a conhecer esta tal de liberdade. A realidade nua e crua é que somos prisioneiros. Não podemos nos esquivar da imensidão da vida dentro e fora de nós, não podemos negar esta vastidão repleta de tudo, de encantos e desencantos, belezas e aberrações, milagres e atrocidades, prazeres inolvidáveis e dores abomináveis. Tudo aquilo que existe faz parte de nós. Podemos nos afugentar em alguma perda de memória, nos isolar em um eremitério longínquo, repudiar as sociedades com atos de rebeldia ou transgressão, mas por mais que demos voltas sempre acabamos tendo que nos confrontar com a vida e o mundo, dentro e fora de nós. Não há saída.

Alguns mantêm preparada no bolso aquela última e poderosa cartada da morte. Acreditam que não importa aquilo que fazem, nem a sórdida prisão na qual se encontram, nem o tamanho dos muros que os ameaçam, pois basta uma decisão, basta um pedaço de giz imaginário para traçar uma janela no meio da realidade e pular para a morte, aquela que eles supõem ser a última das “liberdades”. Talvez eles tenham razão, mas ninguém nunca voltou para nos confirmar isso.

Pelo sim, pelo não, e embora todas as evidências digam que a liberdade não existe, há muitos que continuam sonhando e acreditando que ela seja uma meta possível e alcançável durante a nossa trajetória humana. Alguns até afirmam que encontraram o melhor caminho para ela. Eles se esquecem que qualquer que seja a escolha de um indivíduo, ela inevitavelmente implica ganhos e perdas de liberdade. São os defensores fervorosos e inflexíveis do capitalismo, comunismo, anarquismo, socialismo, romantismo, catolicismo, islamismo, ateísmo, budismo, e todos outros ismos. A lista das correntes que o pensamento criou para a liberdade é longa e inúmeros são os desvios que elas propõem.

Se refletirmos bem, por trás de tudo aquilo que fazemos há uma esperança inata e quase infantil de ir além: além de nós mesmos, de nossas realidades estreitas, de nossos casamentos, solidões, faltas, excessos, crenças, conceitos e identidades, enfim, além de todas as grades. No fundo, admitamos ou não, de uma forma ou de outra, todos nós sonhamos com a liberdade, seja ela da prosperidade, da abundância, do reconhecimento, da saúde, do amor, da paixão, da beleza, do orgasmo, do êxtase, da iluminação, e assim por diante. A liberdade é o lar da felicidade. Se existem fórmulas para alcançá-la, elas com certeza são individuais e intransferíveis, mas qualquer que seja a receita escolhida, o preço das essências espirituais cuja soma resultará no excepcional perfume da liberdade certamente é o mais elevado que se pode pagar.

Entretanto, quantos estão dispostos a dar tudo aquilo que têm? A experiência da liberdade vai além de todas as possíveis escolhas, de quaisquer opiniões e crenças, mas para chegar a vivenciá-la existem apenas duas opções: tudo ou nada. Uma águia não abre apenas parcialmente as asas quando quer voar. No entanto, muitas pessoas pensam equivocadamente que podem chegar a algum lugar amando, vivendo, voando pela metade. Fazer pela metade é ser pela metade, é se inscrever na esfera relativa, é falar sem dizer nada, é fazer sem agir, é se sentir isolado e fragmentado, é nunca manifestar um sentido maior. É viver na mediocridade, na dimensão dos colóquios pobres de espírito e vazios de significado, é balbuciar eternamente: porém, senão, contudo, portanto…

Ninguém pode avaliar aquilo que estamos escolhendo nem a dimensão de nossa escolha, mas o nosso coração sabe se nossa entrega ao nosso sonho, o único que verdadeiramente alimenta a nossa alma, é total ou parcelada. Ser livre é assentar-se no absoluto que existe em nós além de tudo aquilo que é relativo. É saber-se parte do mundo e abrir-se a ele como sendo uma parte de nós. É entregar-se à vida e confiar nela além de todas as intempéries. Como uma águia levantando vôo. É voar sem quaisquer expectativas e com imensa esperança, com todos os medos e toda a coragem, com fervor e com espanto, com curiosidade e temeridade. Ser livre é aceitar o passo que estamos dando, é reconhecer nele o caminho que nos trouxe até aqui, é abraçar em nós tudo que existe e aquilo que nós já vivenciamos, todos aqueles que conhecemos e os outros, cujas existências ignoramos, todos acontecimentos desejados e indesejados, todas as pessoas, amadas ou não, que cruzaram nossa estrada e nos tornaram quem somos. Por fim, ser livre é afirmar o lugar onde nossos corações estão aqui e agora, neste exato momento.

O preço é investir tudo aquilo que temos e somos. Quanto mais damos, mais recebemos em eflúvios perfumados de pura amplidão. Sentir a liberdade como uma certeza e uma bênção que jorra no fundo mais profundo de nossas entranhas, no âmago de nossas existências, isto é a origem e o sentido de toda a vida. Trata-se do exímio aroma da flor mais sublime cuja semente apenas espera para brotar em nós, daquele amor que nos inebria e alimenta, imortaliza e glorifica, queima e dispersa, aniquila e ressuscita, dissolve e eleva, nos engrandece infinitamente, e por fim nos dá as asas daquela liberdade arrebatadora e magnífica que não tem nem nunca poderá ter um preço.

 

Antonella Zara

                                                    www.antonellazara.com

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